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17 / Dez / 2018

Entrevista com o Dr. Marcelo Mouco

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Dr. Marcelo Mouco Fernandes: empatia, fé e solidariedade na medicina.

Ex-aluno do Centro Educacional Lato Sensu, o cardiologista Marcelo Mouco Fernandes, atual Presidente da Sociedade de Cardiologia do Estado do Amazonas e também Presidente da OSCEEB (Obra Social do Centro Espírita Eurípedes Barsanulfo) conta com leveza na voz e emoção na fala, um pouco da sua trajetória como aluno da escola até sua formação acadêmica na faculdade, e nos inspira com atitudes sedimentadas na solidariedade, empatia e fé que é possível criarmos uma sociedade mais humanizada começando por nós mesmos.  


Por quantos anos você estudou no Lato Sensu?

Por quatro anos, da oitava série (hoje, nona série) até o terceiro ano, entre os anos de 1989 e 1993, lembro de ter sido uma das primeiras turmas do terceirão do Lato Sensu.
 

Como foi a sua experiência na escola?

Minha experiência foi muito positiva. Sempre tive um vínculo afetivo com a escola, com todos os professores. Lembro de me sentir muito acolhido pelos funcionários da escola, e acho que esse é o segredo do Lato: acolhimento com disciplina. Sempre houve, por parte da escola, uma preocupação individualizada com cada aluno, ao mesmo tempo em que se cobrava disciplina dentro da sala de aula. Eu mesmo, quando cheguei à escola, tive que me adaptar, o que contribuiu bastante para a minha formação como pessoa e profissional. O Lato complementou a formação que eu recebi da minha família. Eu sou muito grato à escola pela formação não apenas intelectual que eu recebi, mas também como pessoa.
 

Quais eram as suas matérias favoritas?

As que eu gostava mais eram Química, Biologia e Fisica.
 

Que professor te marcou mais? Por quê?

O Professor Vilela. Lembro que eram aulas que não abordavam apenas o conteúdo de Português, eram aulas que através do uso das músicas que ele tocava, através das análises que os alunos faziam sobre as letras da MPB, eram aulas que traziam reflexões e pensamentos sobre a vida e estimulavam a pensar. A verdade é que todas as aulas eram muito boas. A aula do Professor Aristides, por exemplo, que também está até hoje na escola. Lembro da Professora Maria Eugenia, que dava aulas de História de uma maneira muito dinâmica e marcante.
 

Quando você decidiu que seria médico? 

Eu sempre trabalhei desde os 15 anos com trabalhos voluntários, dentro da minha família que sempre foi bastante religiosa – eu sou espirita. O voluntariado sempre foi muito presente na minha vida, desde muito cedo. Minha mãe sempre me levava ao centro espírita para fazer atividades sociais, então eu sempre tive esse lado muito preocupado com o ser humano. Aí, quando chegou a hora de decidir o curso que eu faria no vestibular, eu já tinha isso dentro de mim: eu queria lidar com gente, eu gosto de lidar com pessoas. Então, como sempre tive afinidade com essa área biológica, somado à minha afinidade em trabalhar com pessoas e o meu desejo de ajudar o próximo, eu optei pela medicina como uma profissão em que eu poderia ajudar as pessoas.


Quando chegou à faculdade, quais foram os seus maiores desafios acadêmicos?

Assim que eu cheguei à faculdade eu não tive dúvidas de que eu fiz a escolha certa. Eu estava talhado pra fazer isso. A medicina é a minha identidade como trabalho. Um dos desafios que a gente encontra na faculdade é manter o estudo constante. Eu sempre gostei de duas coisas: fazer trabalho voluntário e poder compartilhar o ensinamento. Durante a faculdade fiz monitoria, participei de projetos de ensino junto aos alunos mais novos, junto com a vontade que eu sempre tive de aprender. O Lato Sensu me ensinou a ter disciplina, o que me ajudou bastante na faculdade. Outra questão importante e desafiadora que sempre conversava com outros colegas na faculdade é a questão da ética, do relacionamento com o outro, de a gente olhar para o paciente como um indivíduo, afinal a ciência que não está humanizada é uma ciência que não tem poder. Se o saber médico não for acompanhado de empatia, ele perde o seu objetivo principal. 


Como a educação que você teve durante a vida contribuiu para que você desenvolvesse esse trabalho comunitário junto a crianças carentes?

Eu sempre tive uma família muito presente graças a Deus. Não que fosse uma imposição essa questão do voluntariado. A gente tinha e praticava uma espiritualidade sem imposição. Lembro da minha mãe preparando lanche para pessoas carentes. Então aquilo ficou marcado em mim, e como eu sempre tive uma afinidade muito grande com a minha mãe, uma mulher feliz, disposta e solidária, acabei me influenciando. É aquilo: o exemplo arrasta. E quando jovem, com 15 anos de idade, eu comecei o trabalho voluntário, ia de porta em porta pedir mantimentos para doar para pessoas necessitadas e, por causa dessas experiências, dessa criação que tive, hoje eu entendo a importância da humildade, a importância de não ser egoísta.


A medicina é um sacerdócio, uma unção que apresenta caráter nobre e venerável em razão do devotamento que exige. Além de se doar no trabalho de médico, você também doa seu tempo livre no trabalho voluntário que você desenvolve, você tem algum descanso para si?

A essência da Medicina é essa que você descreveu, e aqui entra o juramento de Hipócrates: aliviar a dor quando possível. Toda a família está na obra, é um prazer poder ajudar ao próximo. Minha esposa adora. E meus filhos nos acompanham, praticam a solidariedade e vão vendo e aprendendo como a vida é. Eu consigo conciliar; o tempo é curto, mas faz parte do nosso estilo de vida.


Qual a sua maior realização?

É poder fazer o bem, é poder construir algo positivo todos os dias. Eu creio que a gente deve se esforçar para melhorar o nosso entorno, melhorando a vida das pessoas que nos cercam. Ajudar o próximo, não apenas modifica o o outro, como modifica a nós mesmos, no sentindo da palavra ser humano, ajudando o próximo a gente aprende a ser menos egoísta e a exercitar a humildade. 


Como esse trabalho comunitário surgiu?

Desde 2013, a instituição (OSCEEB) mantém a Escola Espírita Allan Kardec, que é uma escola de educação infantil que oferece ensino gratuito a crianças da comunidade local. Hoje em dia a escola conta com a parceria que a gente fez com o Lato Sensu, que nos ajuda não apenas por meios financeiros assumindo os custos da folha de pagamento da equipe docente como também do material pedagógico. Alguns membros da escola estagiam no Lato para aprenderem mais sobre a metodologia de ensino do Lato Sensu, levando não apenas disciplina mas também conhecimento para essas crianças da comunidade. 


O que você diria a quem tem vontade de desenvolver trabalhos comunitários?

Eu diria que faça, siga sua vontade e coração, não se preocupe com o que as pessoas vão achar. Porque uma pessoa que faz, modifica muita coisa. A gente não pode achar que é feliz sozinho. Existe uma frase que diz que a nossa felicidade será naturalmente proporcional em relação à felicidade que fizermos para os outros. A questão é o que podemos fazer para mudar o nosso entorno para melhor ? A verdadeira mudança vem da renovação íntima em nós. A paz do exterior, vem de dentro, independentemente da fé de cada um. O trabalho voluntário que eu pratico na escola do Centro Espírita é um trabalho que nos faz enxergar que a pior miséria não é a material e sim a moral.

*Os três filhos do Doutor Marcelo estudam hoje no Lato Sensu, e como o pai, a mãe e a avó, eles também são envolvidos em trabalhos comunitárias da OSCEEB. No site http://www.osceeb.org, você pode fazer uma contribuição financeira a partir de 10 reais, via pagamento seguro ou se tornar um voluntário, ao preencher um formulário. A OSCEEB é resultado da iniciativa de um grupo de voluntários atuantes desde 1996. Trata-se de uma instituição sem fins lucrativos, com título de Utilidade Pública Estadual.

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Texto e entrevista por Tainá Lima, ex-aluna do Lato Sensu, dentre os anos de 1994 a 2008. Estudou Jornalismo e Escrita Criativa na Northeastern University, e continua apaixonada pelo poder transformador da Literatura e de entrevistas como essa.

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